Seu corpo, suas vontades.

Achei este artigo muito interessante. Fala de como o corpo responde diante tanta pressão social pelo fato de sermos mulheres e como isso pode refletir fisicamente, principalmente nos ovários e útero.

O texto intitulado O que seus ovários estão tentando dizer?  é da Janaína Moraes, postado dia 27/07/2016 em seu wordpress. Vou colar o texto na íntegra, e boa leitura a todos.

 

jade beal foto

Foto de JADE BEALL – ensaio fotográfico sobre a beleza dos corpos das mulheres que tá tiveram filhos.

Há quem acredite que uma doença se manifesta meramente por fatores biológicos. Eu já acredito em uma combinação de fatores biológicos, sociais, culturais e psicológicos. A meu ver, a doença é uma forma do corpo se comunicar, mostrar que algo não vai bem – é a manifestação de algo muito mais profundo.

A síndrome dos ovários policísticos já se mostrou ser algo bem complexo – são muitas condições hormonais e metabólicas que afetam os ovários. E para além da questão biológica? O que significa ter os ovários policísticos em uma dimensão psicológica e social?O que estes ovários policísticos estão tentando me dizer?

Eu faço parte da primeira comunidade educativa sobre o ciclo menstrual (Soy1, soy4) criada pela pedagoga menstrual Erika Irustra e em um dos fóruns da comunidade encontrei uma terapeuta (@Hermagica) que trabalha com muitas mulheres que possuem SOP e havia compilado vários livros e textos sobre os equivalentes mentais e emocionais da síndrome.

Ela acredita que a cura está relacionada com a homeostase do sistema em geral e que a doença depende de um conjunto de fatores que desequilibram o sistema, como ambientais, alimentícios, culturais, de gênero, fisiológicos. Assim, fazendo referência ao trabalho da médica especialista em saúde da mulher, Cristiane Northrup e dos psicoterapeutas Ruediger e Margit Dahlke (El camiño feminino a la curación), ela afirma como é importante levar em conta as questões mentais e emocionais da pessoa.

“Pode ser que a mulher esteja se sentindo presa, inconformada, entediada, limitada em alguma ou diversas áreas de sua vida, com algo ou alguém, ou pode ser que esta mulher, por conta de seu núcleo familiar e social, tenha incorporado crenças sobre o que significa ser mulher que a deixam enferma”. (@Hermagica)

De acordo com @Hermagica as mulheres tendem a deslocar muitas coisas ao baixo ventre, e neste centro projetam toda uma série de problemáticas que tem uma origem totalmente distinta. “Raras vezes aparecem problemas nesta zona se a vida é satisfatória, mas é frequente que se projetem as preocupações com o trabalho, relacionamento e gravidez, além de desejos não cumpridos relacionados à maternidade e a uma sexualidade insatisfeita”.  Embora a doença se manifeste na vulva, ovários e útero, a origem é mais profunda. Uma vida insatisfeita é percebida como uma carga que pressiona o sacro, assim como as preocupações existenciais, e a partir dali se projetem dores na base das costas e no baixo ventre, segundo a terapeuta.

Além disso, ela afirma que as mulheres devem procurar entender a desvalorização coletiva que é feita do corpo feminino e, principalmente, de seu ventre (vulva, ovários e útero) e em que medida assimilaram isso inconscientemente.  “É possível que a mulher tenha se esquecido de seu ventre e ele grita pedindo socorro por meio das dores. Esta região sempre busca atrair atenção e conseguir apreço e dedicação. Quando uma mulher consegue uma valoração positiva de seu ventre e consegue liberá-lo deste lugar ruim em que foi colocado, experimentará um alívio geral. O ventre se converte em fonte de alegria e prazer sem limites.”

A terapeuta destaca alguns pontos importantes de serem percebidos:

– Observar atentamente em busca de mensagens negativas que pode ter interiorizadona infância a respeito de ser uma mulher fértil. Trabalhar para tirar da consciência essas mensagens para que elas não dominem seu corpo e seus ovários.

Os ovários e o útero estão relacionados com a criação, que pode ser de uma vida (criança), mas também de um projeto, de realizar e expressar algo que acredite ser importante para a vida. Então é interessante perceber o que está sendo feito ou deixando de fazer em relação a este tema.

– A persistência do folículo. Não há ovulação porque o folículo não se rompe, pois sua cápsula é muito dura. Não raro, o folículo continua crescendo até que se transforma em um cisto cheio de líquido. Neste caso, é importante averiguar até que ponto seus tecidos rígidos são um reflexo de si mesma, se você não está sendo muito dura consigo, sobretudo em relação a ter filhos.

– Onde tudo se converte em tecido conjuntivo, duro e que não deixa passe livre ao óvulo, pode haver indícios de uma falta de desprendimento no âmbito feminino. É evidente que falta confiança e que em lugar dela se forma uma blindagem. Há uma dificuldade de entrega, arquetipicamente feminina, dando lugar à aspereza e a dureza, que são tidas como arquétipos masculinos.

– Pode-se supor que as mulheres depois de viverem muitas feridas, que afetem sua sensibilidade, vestem uma couraça (tecido endurecido), para não deixar mais transparecer seus sentimentos e lágrimas.

– O líquido que se acumula nos folículos, podendo se transformar em cistos, como toda a água equivale ao elemento espiritual e emocional. Portanto, em um folículo ou cisto se acumulam energias espirituais que não puderam ser vividas como, por exemplo, lágrimas retidas que não foram possíveis chorar ou sentimentos e emoções que não puderam ser expressas.

– O desejo de ter filhos que não pode ser manifestado por diversos fatores, também pode estar ligado a este acúmulo. Más experiências com o pai, desilusão ou falta de confiança no companheiro ou companheira, falta de amparo ou condição familiar para ter filhos, podem fazer com que o óvulo seja retido. Acontece um tipo de anticoncepção, correspondendo a dores interiores e lágrimas blindadas.

– Tudo isso tem relação com o fato de que sobre as mulheres gravita toda a carga e responsabilidade de uma gravidez, não havendo distribuição igualitária dos papéis sociais, gerando um conflito entre os fatores biológicos, os desejos pessoais e as pressões sociais.

– A manifestação do quadro de ovários policísticos e cistos nos ovários estão carregados de símbolos. A melhor maneira de evitar o pior dos processos físicos, como a ruptura do cisto, por exemplo, é deixar que a energia espiritual, emocional acumulada seja liberada em seu devido tempo, no âmbito social, ao invés de ser direcionado ao próprio corpo.Será necessário iniciar discussões com a família, companheiros e amigos e até consigo mesma, sobre todos os temas da vida que têm sido pouco dialogados, principalmente relacionado ao feminino. É importante falar sobre o que é sentido e vivido para que toda esta corrente espiritual e emocional flua.

– O tamanho do cisto equivale à relevância do tema da fertilidade e é importante considerar um modo de integrar este grande tema a sua vida. Para muitas mulheres, em particular as mais jovens, é difícil entender esta temática em um nível distinto ao biológico. Mas é possível ter filhos em diferentes níveis, como projetos pessoais ou profissionais que realmente crescem em nossos corações, que vem sendo gestado à bastante tempo, prometem satisfação e requerem cuidado mesmo depois do parto.Assim, se torna importante destinar sua energia à vida, à realização dos projetos, antes que este tema se desgarre e se rompa internamente.

– A pressão no baixo ventre indica a sobrecarga que há por trás da temática psíquica da fertilidade e da maternidade. O perigo mortal em casos extremos assinala que se trata de uma temática essencial, que não pode ser retardada já que, em algum momento, a pressão interna pode não ser suportada. Então, para resolver este problema será necessário confrontar com toda a força da alma os temas da fertilidade, a maternidade, a herança feminina e etc., para poder se reconciliar finalmente com estes temas. Em certas situações será necessário assumir posições de ruptura, reavaliando atitudes e até rompendo relações que não ofereçam segurança.

Depois de ter contato com os equivalentes emocionais e sociais da SOP eu procurei recapitular momentos que vivi na vida, em busca de acontecimentos que poderiam ter contribuído para este quadro e muitas coisas fizeram sentido.

Primeiro de tudo eu sinto muito forte em mim a carga social de ter nascido com uma vulva.Nosso corpo não é valorizado, nosso conhecimento é descredibilizado, nossas emoções massacradas. E é claro que isso traz consequências, físicas e psicológicas. E é evidente que cada mulher vai assimilar isso de uma forma. A pressão sobre a maternidade e uma gravidez indesejada são quase insuportáveis. O medo de engravidar que eu sentia até pouco tempo era algo muito surreal, a ponto de eu achar que um diagnóstico de SOP não era tão ruim assim. Por muito tempo eu neguei a vontade de ter filhos, como uma resposta de defesa a essa pressão social de que toda mulher precisa ser mãe. Que mensagem eu estou enviando para o meu corpo com toda essa confusão? A verdade é que é muito difícil desenvolver um sentimento de confiança em relação ao nosso corpo, nossa sexualidade e nossas emoções em uma sociedade que faz de tudo para nos deixar inseguras.

Por muito tempo eu bloqueei minha intuição, meu espírito criativo, minhas emoções mais profundas por medo de não ser aceita ou parecer inadequada para a situação. Vesti, como muitas pessoas, aquela mascara dura e insensível de gente que não sente nada e nem se importa com nada. E quem sofre as consequências? Eu mesma! Mas isso não mais! Se meus ovários estão carregados de folículos cheios de fluidos emocionais eu vou coloca-los para fora. Vou dizer o que penso, vestir o que quero, comer (em todos os sentidos) o que me dá prazer, criar minha arte, escrita, poesia, performance muito louca como sempre quis e sonhei, ter filhos ou não, cuidar de uma horta, viajar o mundo todo, fazer bruxaria, xixi em pé, tomar sol pelada, tatuagem, tambor, dança… tudinho mesmo que aparecer pelo meu caminho eu farei. Cansei! Cansei de ser mais uma engrenagem deste mundo doente que oprime qualquer forma de existência fora do padrão heteronormativo!

Muita gente vai me chamar de louca, vadia, insana, putana e eu não tô nem aí! Vou remando contra a corrente no meu barquinho psicodélico carregado de cogumelo, música latina, quitutes mineiros, arte menstrual, e um bando de gente mucho louca porque num dá pra remar só! Partiu?

Janaina Morais

Postado por Patrícia Nechar Plus

Um pensamento sobre “Seu corpo, suas vontades.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s