Gorda feliz existe sim 

Contestando a ideia de que ter um corpo gordo é sinônimo de tristeza, mulheres rompem preconceitos e transformam a pressão social em incentivo para a autoaceitação

Reprodução/FacebookReprodução/Facebook

É comum ouvir as expressões “gordinha”, “cheinha” ou “fofinha” quando pessoas querem se referir a uma mulher que está acima do peso idealizado pela sociedade. Definidas socialmente como fora do padrão estético do corpo feminino, muitas mulheres têm passado por um processo de empoderamento, ao se questionarem sobre visibilidade e representatividade dos seus corpos, e preferem ser chamadas de gordas. Desmistificando a ideia de que ter um corpo gordo é sinônimo de tristeza, mulheres têm se tornado protagonistas em romper preconceitos e transformam a pressão social em incentivo para a autoaceitação.

Em uma pesquisa realizada pela revista Marie Claire, intitulada “Por que o mundo odeia as gordas”, estatísticas revelaram que 52% das leitoras acham que é pior engordar 15 quilos do que reduzir o salário em 30%; 37% ficam incomodadas vendo uma mulher gorda comer hambúrguer com batatas fritas e 66% admitiram já ter feito um comentário maldoso ao ver uma mulher gorda usando biquíni. Dados como esses incentivam ainda mais a luta constante das mulheres por mais aceitação e respeito. 

“Gorda e feliz”, é assim que a estudante Daniela Martins, 21, se define. Ela relembra que durante sua adolescência um episódio foi marcante para que ela aceitasse que ser gordo não deve ser sinônimo de depressão. Aos 14 anos, os amigos do colégio decidiram ir à praia e, na época, ela cogitou não comparecer ao passeio por causa do seu corpo. “Era muito difícil usar um biquíni porque todo mundo era magro e eu me achava feia”, disse. 

Sete anos depois, Daniela ainda lembra: uma amiga falou que ela ia voltar para o meu habitat natural, referindo-se ao mar. “Eu decidi ir à praia e até hoje uso biquíni porque eu me sinto bem dessa forma. Sempre gosto de rebater comentários preconceituosos e ficar bem porque se eu ficar triste, é muito pior”. Seja através da imposição da mídia ou por meio de comentários incovenientes, muitas vezes o esforço para emagrecer é mais pesado que o próprio corpo.

Apesar de não conter nos dicionários tradicionais, o termo gordofobia é utilizado para categorizar a repulsa, o nojo e sentimento de raiva de uma pessoa gorda. No livro ‘Erotismo e Mídia’ (2002), os autores Francisco Camargo e Tania Hoff explicam que o corpo veiculado nos meios de comunicação não são os corpos de natureza, mas a representação de um ideal estético. Como consequência, algumas pessoas tendem a negar a liberdade das mulheres e homens serem felizes com um corpo gordo.

“As pessoas sempre repetem a mesma coisa. Me mandam fazer uma dieta poque dizem que tenho um rosto lindo, mas um corpo feio. Eu sempre questiono, feio pra quem? Porque eu me sinto bem assim, pra mim ele é lindo e isso basta”, contou Daniela. Ela explica que não se sente pior porque está acima do peso e fora do padrão estético. É o que também pensa empresária e ativista Cintia Farias, 23, que diz se apoiar em pensamentos positivos e na autoestima para continuar se amando.

“Dificilmente eu tenho vergonha de usar algum tipo de roupa por causa de comentários alheios. Às vezes eu sofro com isso, mas consigo driblar. Me amo cada dia mais”. Para ela, as mulheres cansaram de seguir um padrão imposto e agora buscam, em primeiro lugar, a felicidade. “Eu acho que o movimento feminista está nos salvando cada vez mais, porque nossa causa é falada e nossas referências são outras”, afirmou. 

Na contramão do preconceito, mulheres gordas se unem por respeito

Na Internet e nas redes sociais, o panorâma não é diferente. As mulheres se unem no universo online e trocam mensagens, dicas e textos que ajudam no processo de aceitação e empoderamento feminino. No Facebook, a página “Coletivo Gordas Livres”, com quase dez mil seguidores, tem o objetivo de debater a desconstrução de estereótipos e distorções sobre a mulher gorda, além de discutir e combater a gordofobia de forma horizontal.

A universitária Daniela Martins também possui uma postura combativa nas redes sociais e diz que não liga para comentários gordofóbicos. “Eu gosto de publicar minhas fotos de biquíni ou mostrar o meu corpo, porque gosto dele e as pessoas podem até opiniar sobre isso, mas eu não vou agir de acordo com a vontade de ninguém”. Dona de uma autoestima revigorante, ela diz que o retorno positivos de outras meninas sobre as postagens é gratificante.

Em suas músicas, a funkeira niteroiense MC Carol gosta de falar sobre aceitação de seu corpo e respeito perante as imposições da sociedade. Recentemente, em uma publicação no Facebook, Carol questionou a associação de ser plus size a uma doença, enquanto pessoas magras também sofrem com problemas de saúde e isso é pouco falado.

“Então eu pergunto: será que a saúde está diretamente ligada ao formato do seu corpo? O meu ponto aqui é mostrar que a bandeira que eu levanto é da autoaceitação. Gordas ou magras podemos ter doenças e morrer, podemos trabalhar, podemos nos casar ou não, e ser felizes sem os padrões que a sociedade impõe pra gente. Quero apenas provar que ser gorda não é sinal de depressão, limitação ou qualquer outra coisa negativa”, argumentou na postagem. 

Moda Plus Size

Na época da Renascença, por volta dos séculos XV e XVI, grande parte das pinturas retratavam o corpo feminino de forma farta, com seios grandes e pernas largas. Com a chegada da Idade Moderna e a maior valorização da razão e da ciência, o corpo passa a ser retratado de forma mais funcional, com traços magros. No Brasil, durante o início da década de 1970, o corpo excessivamente magro das modelos começou a ditar a moda feminina e ganhou espaço na mídia. 

Constratando com “a medida certa” dos manequins estampados nas lojas, o ramo das modelos plus size está numa crescente no Brasil. Em 2014, Pernambuco sediou o primeiro concurso estadual Miss Brasil Plus Size no Nordeste. Como em um concurso de moda tradicional, jurados avaliaram a performance das modelos nos quesitos charme, elegância, beleza de rosto e corpo, desenvoltura e simpatia.

A vencedora do concurso e 1º Miss Plus Size do Nordeste, a recifense Babi Luz, conta que sempre foi gorda e desde a adolescência desejou participar de eventos de beleza, mas a resposta era sempre a mesma: “emagreça”. “Quando apareceu a oportunidade de participar do concurso, a minha cabeça mudou completamente. Eu comecei a me aceitar e ganhei a oportunidade de viver, porque antes eu só existia”, explicou.

Para ela, uma das maiores felicidades atreladas à participação no prêmio foi a oportunidade de se sentir sensual com roupas antes não usadas, por vergonha do corpo. “Hoje eu uso vestidos curtos, blusas sem manga e me sinto muito feliz com meu corpo e isso não quer dizer que não estou saudável”.  

Em outubro deste ano, a jornalista e blogueira Juliana Romano, 28, foi a primeira plus size a posar para a Playboy Brasil. Ela estampou a revista na seção ‘Mulheres que Amamos’. A proposta eram fotos somente de lingerie e uma entrevista sobre o trabalho da blogueira. 

Em sua coluna para o site Brasil Post, Romano chegou a pensar que o convite era uma brincadeira. “Eu fiquei orgulhosa de ter sido a primeira mulher gorda a sair na Playboy do Brasil. Quando chegou um e-mail, eu dei risada porque eu não me vejo – e nunca me vi – como uma mulher sensual e sair assim era impensável para mim”. 

Após ser a vencedora do concurso, Babi Luz conta sobre as mudanças na sua vida. Ela agora faz fotos, é agenciada e regularmente recebe convite para participar de eventos de moda. “Hoje eu não sofro, mas entendo que existem pessoas mais sensíveis e se eu puder levantar o astral delas falando sobre meu processo de aceitação, com certeza, eu farei. A gente precisa aprender a amar cada gordurinha que temos”.

Fonte http://www.leiaja.com/noticias/2016

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