Preconceito Inconsciente e Respeito.

Gostaria de compartilhar com vocês um fato ocorrido comigo que me incomodou. O preâmbulo é longo, mas importante para que percebam toda a situação.

Faço uma disciplina voltada para as biopolíticas do corpo e o mundo contemporâneo. A maioria das pessoas da sala são dançarinos, atores, educadores físicos, fotógrafos, jornalistas e eu, que além de estudar o mundo plus size em seus aspectos dentro das redes sociais, sou a única gorda da sala. Até aí tudo bem, pois sempre nos tratamos com respeito mútuo, principalmente em relação as nossas pesquisas.

Nesta disciplina, estamos estudando sobre o tema “Pós Verdade”. Fatos que estão acontecendo em nosso governo e em outros países, ou seja notícias plantadas, inventadas e que após várias replicações nas mídias se tornam complicadas de desmentir, se tornando uma verdade quando há um interesse por detrás da informação posta.

Um dos pontos que estávamos discutindo é: uma falsa informação é passada. Fulano acusa Beltrano de alguma coisa (que não existe, inventada). Acontece que hoje em dia, Beltrano tem que provar que Fulano mentiu, e não ao contrário, ou seja, Fulano que acusou deveria ter provas desta denúncia. Atualmente isso não ocorre… …  vide o exemplo de nosso atual governo.

Entendida a situação, percebam bem a pergunta com exemplos hipotéticos do colega que se graduou em educação física disse:

Colega: – “Então quer dizer que se eu acusar que ela me xingou (aponta para a colega); ela me deu um tapa na cara (aponta para outra colega); e ela (apontou para mim) roubou minha coxinha. Elas que terão que provar que eu estou mentindo?”  

Professora: Sim… etc…  etc… explicou com base no conceito de pós-verdade.

Olha que situação simples e hipotética que o colega me colocou em relação a “pós-verdade”: como provar que eu, gorda, não roubei a coxinha do magro fitness da sala de aula?

Me senti incomodada com o simples exemplo dele. Só porque eu sou gorda, tenho que roubar a coxinha????? Sei que é um exemplo extremamente artificial, e o que aconteceu foi o inconsciente dele se manifestando. Vejam só: Ele sabe que pesquiso políticas do corpo gordo, que defendo a diversidade de corpos e ele, mesmo assim, usou inconscientemente um exemplo gordofóbico.

Volto a dizer que ele usou um exemplo subjetivo, sempre me tratou com respeito, mas de maneira inconsciente acabou afetando o próximo.

Por que a gorda da sala tem que roubar a coxinha???? No exemplo que ele deu poderia ter roubado outra coisa? Ou mesmo tê-lo xingado, ou dado uma tapa na cara dele?  Eu poderia ter roubado uma caneta? Carteira?… sei lá. E se eu fosse negra? Será que se eu roubasse a caneta ou carteira iria ser diferente? E se eu fosse negra e gorda???

Não vou condena-lo. Não vou berrar ou gritar. Não vou apontar o dedo na cara dele. Pois sei que ele agiu de maneira inconsciente pelo fato de eu ser fisicamente diferente dos demais colegas e fui inconscientemente estereotipada.

Existe uma consciência coletiva que massifica nosso pensamento em padrões. O fato de que pessoas gordas comem demasiadamente é um exemplo desses. O resultado da fala do colega é um conjunto de informações midiáticas herdadas de uma sociedade que não aprendeu a lidar com pessoas diferentes, deste modo, desrespeitando-as. Até então ser negro, gordo, homossexual, mulher, ter uma religião diferente, deve-se permanecer invisível na sociedade. Estamos iniciando agora mudanças sociais em relação as pessoas gordas.

A fala do colega representa o preconceito inconsciente, ou seja, seu livre arbítrio faz com que mesmo uma pequena e simples decisão represente todas as informações coletivas herdadas socialmente que recebeu ao longo do tempo. Essas informações preconceituosas, já estão registradas no inconsciente.

Uma pequena ação ou fala que ele proferiu, poderia ter causado um enorme transtorno em sala de aula. Se eu não tivesse o conhecimento necessário para entender que o colega faz parte de um processo social preconceituoso vivido até hoje, iria sair discutindo e desviar todo o foco central da disciplina. O preconceito inconsciente é uma discussão muito séria.

A luta dos militantes anti-gordofobia é exatamente combater essas informações sociais e midiáticas. Devemos mudar a sociedade com ações de inclusão e respeito, com as indiferenças sem agressões físicas ou palavras mal educadas, mas sim demonstrando em nossos atos e vozes sociais a capacidade e igualdade que nós, gordos, negros, deficientes, mulheres e homossexuais temos.

Publicado por: Patrícia Assuf Nechar –  Doutoranda em Comunicação e Semiótica. Mestre  e Pesquisadora do Movimento Plus Size e Corpo nas Redes Sociais.

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